Gestão do ser

Gestão do ser corrido ao pé – por Arthur Martinez

Sempre que encontrava algo melhor, ela o trocava.

Tinha a sensação de ápice. Algo fugido de dentro, do centro. Algo abominável. Procurava o pé. Procurava sempre pelo pé. Jamais sorria.

 

Tentava de todo modo se livrar da desagradável criatura. Em vão, sempre em vão. Era mais forte, mais alto e visivelmente superior.

 

Cortava-lhe lasquinhas do dedão esquerdo. Tentava feri-lo. E corria de medo dele. Morria de medo dele.

 

Tinha porém uma curiosidade, unida com uma coragem inusitada.

 

Forte e lerdo, ele acordava. Fazia dois movimentos bestiais e retornava ao seu sono íntimo e refrescante. Voltado para o sol. O segundo sol.

 

Ela precisava trocá-lo, e tocá-lo em outra extremidade do seu ser corrente. Prendê-lo em seu arco flamejante. Cortá-lo novamente, quem sabe?

 

Foi-se em nova investida: Cuspir-lhe à cara. Falsos trejeitos a desconcertaram.

 

Gestão de seus movimentos.

 

Estava pra desistir diante de tudo aquilo que era a criatura. Pensou-se em ir. Pensou-se ali. Logo, pensou em ficar. Tentar tudo novamente. Acordar sem despertá-lo.

 

Foi-se uma, duas e logo a terceira batida: Dormia profundamente em seu recanto não mais silencioso.

 

Foi-se quatro, cinco e a sexta batida: Virou-se para o lado.

 

Foi-se sete, oito, nove e a décima batida: Trovoadas seguidas de vento!

 

Acordara o gigante! Seus pés bateram no chão com impressionante força e firmeza. Ela sucumbiu diante do pesado pó.

 

Distante corrida até o fim seguro.

 

Precipitou-se a desistir. Indo embora pelo torto caminho de pedra lascada e seca. Água em teus olhos. Água salgada surgia, embaçando sua visão.

 

Ele se aproximava. Seu desespero, seu choro, sua pulsação antes pendentes, explodiram.

 

Aproximava-se. Suspense mórbido.

 

Foi então que a criatura sorriu. A ergueu com sua mão de pele tão dura.

Diante dela o gigante sorriu.

 

Não iria mais trocá-lo. Apenas tocá-lo. Para sentir.

Sentiu-o como havia sonhado em sentir seu predecessor inexistente.

 

Por fim sorriu.

arthur martinez