Os Malditos e Suas Maldições

Cada participante do coletivo tem seu jeito único de escrever. Acompanhe os textos por autor.

Author Archives:Maurício Ferreira

pinocchio-1000x750

Mentiras – por Maurício Ferreira

RAPAZ

Não busco mais o amor. Meu coração? Já nem sei mais. Isso é bobagem! Bullshit! Não importa, esse tipo de amor é um sentimento inventado para os fracos se perderem e nunca mais se acharem.

Esse tipo de amor já não machuca mais o meu coração, já não penso mais em quem um dia amei e parar de pensar nele foi fácil, a vida é feita de escolhas, escolhi não mais amar.

A vida me mostrou outras possibilidades: Grindr, Tinder, Scruff, Sauna, Banheirão. São tantas as possiblidades de ser feliz, porque as pessoas ainda insistem em amar? “Sexo, drogas e rock and roll”, quem disse que essas são as três coisas essenciais da vida foi um gênio!

Porque amar? Nem sei mais! Meu coração? Deixei com quem acreditei um dia ser o amor da minha vida e se você quiser saber do meu coração pergunte a ele, pois dele, já nem sei mais.

 

 

Texto escrito no Workshop de Compartilhamento “Amor e Violência – Funarte” – Outubro/2016

lgbt-flag-blood-1024x538

Colateral – por Maurício Ferreira

(DTox está dirigindo o carro, Darling está no banco do passageiro mexendo em seu celular e Mateus no banco de trás.)

MATEUS

Darling para de ficar respondendo as mensagens desse cara, ele não te merece.

DARLING

Fica na sua Mateus, senão não te deixo beber do meu whisky.

MATEUS

Meus 18 anos, vou beber até cair. Pena que o Gustavo preferiu ir pra Plus X, queria tanto que ele tivesse vindo também.

DARLING

Esquece o Gustavo bee, qualquer coisa se contenta aqui com o DTox.

DTOX

Tá me estranhando Darlingzinha? A fruta que eu gosto quem fornece é você.

(Chegam à loja de conveniência.)

DARLING

A gente já volta Mathew, quer alguma coisa além do Whisky?

DTOX

Um leitinho?

MATEUS

Vai à merda vocês dois.

(Darling e DTox saem do carro e vão para a loja de conveniência. Mateus fica no carro vendo fotos de Gustavo em seu celular. Leandro bate na janela do carro. Mateus se assusta. Leandro faz sinal com as mãos para que Mateus abra a janela.)

LEANDRO

Desculpa, te assustei?

MATEUS

Não, eu só tava distraído.

LEANDRO

Meu nome é Leandro e o seu?

MATEUS

Mateus.

LEANDRO

Oi Mateus. Eu tava indo para Ubatuba mas o meu gps não tá dando sinal. Acho que me perdi.

MATEUS

Nossa, você tá bem perdido. Você tem que descer toda a rua e lá no final virar à direita. Você vai andar mais uns quinze minutos e vai cair na Marginal Tietê, daí é só ir seguindo as placas.

(Leandro olha fixamente para os olhos de Mateus, que fica sem graça.)

LEANDRO

Desculpa por ficar encarando, é que seus olhos tem uma cor tão bonita, é um verde bem penetrante.

MATEUS

Obrigado?

LEANDRO

Eu tô tão cansado. Tô dirigindo há horas e não conheço nada por aqui, talvez seja meio perigoso dirigir desse jeito. Você não conhece um hotelzinho barato por aqui?

MATEUS

Por aqui? Hmmm, não sei…

LEANDRO

Você mora aqui perto?

(DTox se aproxima de Leandro pelas costas.)

DTOX

Algum problema?

LEANDRO

Não. Nenhum problema. Obrigado Mateus.

MATEUS

Boa viagem.

(Leandro sai. Dtox entra no carro no banco de trás.)

DTOX

Seus pais nunca te avisaram para não falar com estranhos?

MATEUS

Ele só tava perdido.

DTOX

Um carinha bonitinho, perdido, vindo pedir informação à uma da manhã? E você todo tonto quase abrindo a porta do carro pra ele.

MATEUS

Relaxa, eu não sou nenhum idiota.

DTOX

Você devia se cuidar, esses com cara de inocentes são os piores.

MATEUS

(irritado) Tá tá, tá bom. E cadê a bebida?

DTOX

A Darling tá trazendo.

(Darling chorando e tremendo entra no carro, no banco do passageiro.)

DARLING

Meninos, aconteceu uma tragédia.

DTOX

O que foi?

DARLING

Um louco saiu atirando dentro da Plus X.

MATEUS

Como assim? Aonde você viu isso?

DARLING

Na tv, aí na lojinha.

(Mateus se desespera para abrir a porta do carro.)

DTOX

Calma Mateus.

MATEUS

O Gustavo tá lá.

(Mateus sai do carro correndo em direção à loja de conveniência. Quando entra na loja ele assiste na tv uma repórter colhendo depoimento de uma das testemunhas que estava na Plus X.)

TESTEMUNHA

(chorando e abalada) Foi tudo muito rápido. Eu ouvi os tiros e de repente as pessoas começaram a correr e a gritar, foi tudo muito rápido.

(DTox e Darling entram na loja de conveniência e também assistem ao noticiário junto de Mateus.)

REPÓRTER

Obrigada. Como vocês podem ver as pessoas estão muito abaladas. Nós temos o vídeo de uma menina que não quis se identificar, mas que estava filmando com o celular dentro da Plux X no momento do ataque e conseguimos ver o rosto do homem que atira. Temos aí a imagem.

(Aparece a imagem de Leandro. DTox e Mateus ficam atônitos.)

REPÓRTER

A polícia já o identificou como Leandro Pereira de Lima, ele tem 25 anos e a suspeita é de crime por homofobia. Leandro é da cidade de Ubatuba e se encontra foragido. A polícia pede para que entrem em contato se houver qualquer informação.

 

Cena vencedora da seleção para a Master Class 4 – Aguinaldo Silva. Baseada na notícia “Ataque à boate Pulse em Orlando”.

texto Mau

Preparar… Apontar… – por Maurício Ferreira

– Cala a boca sua puta.

– Não, você não é um procedimento. Eu Sou Mau, for a while, but someday, You Will.

– Já te disse que sim, que eu te amo. Agora coloca esse pau na sua boca vai.

– Sim, eu gosto assim. Sim, você agora faz parte da minha família. Sim, quantas vezes você quiser. Sim, eu ainda estou puto por você compartilhar nossos problemas com todo mundo. Sim, eu ainda estou puto por você ter tido casos afetivos fora do relacionamento. Sim, eu ainda estou puto. Ainda estou puto. Isso minha putinha, não para minha putinha, não para, não para…

– Não, ainda falta um pouquinho, eu te aviso. Não, eu não te aviso, eu quero meu gosto amargo na sua língua, minha testosterona dentro da sua boca, escorrendo pela sua garganta, queimando no seu estômago. Não, eu não acredito em vingança, em certo ou errado. Só acredito em sim ou não, em decisões. Sim ou não! You jump, I jump? Yes or no? AAAuuhhhhhh…

 

 

06/04/2015

Arte: Michael Vicin

DSC01110

Banheirão – por Maurício Ferreira

(Eles conversam enquanto lavam e secam as mãos.)

1. Me dá seu telefone.

2. Não dá, preciso ir.

1. Eu gostei de você, queria mais.

2. Você mora por aqui?

1. Sim, pertinho, na rua de cima. Quer ir lá?

2. Não dá, minha mulher tá me esperando lá fora.

1. Você é muito gostoso!

2. Obrigado.

1. Me dá seu telefone vai.

2. Não dá cara.

1. Eu sou discreto, não vou te dar B.O. não.

2. Tá bom então vai. Anota aí. Vou te dar o do meu serviço. Dois sete três quatro – cinco zero meia nove.

1. Meia nove, hmmm, aí sim hein, quero experimentar…

2. Beleza, vou nessa.

1. Gostei viu, delícia.

2. Falou!

(02/2014)

Foto: Cena do filme “Taxi Zum Klo” de Frank Ripploh.