Blog Maldito

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vana

DESCULPA. – UMA INCONVENIÊNCIA EM SEIS PARTES – por Vana Medeiros

PRÓLOGO

(No centro do palco, um(a) cientista fala ao público.)

CIENTISTA
Boa noite! Em primeiro lugar, gostaríamos de agradecer a presença de todos nesta linda noite. Nesta adorável noite. Eu tenho certeza de que o tempo dos senhores é muito mais valioso que o meu, e, portanto, pretendo ser breve em minhas colocações. Convoquei-vos aqui nesta já subscrita adorável noite para presenciarem um anúncio histórico. Uma descoberta científica que irá revolucionar o mercado da tecnologia nos próximos anos. Na linguagem que os senhores, tão importantes nos seus cargos executivos, estão acostumados, simplesmente estamos prestes a conhecer a vossa próxima mina de ouro. Uma instigante e surpreendente mina de ouro. Como muitos dos senhores bem sabem, passei as últimas décadas da minha vida dedicando-me aos méritos da ciência. E não poderia estar mais satisfeito com os resultados. Pois bem. Vamos ao que importa. A grande invenção. Vocês estão sentados nela. Não, não fiquem nervosos, eu lhes imploro. Não há motivos para temores infundados. Apenas alegrias nos esperam. Esta própria sala, senhoras e senhores, é a minha mais brilhante invenção. A sala onde os senhores se encontram, quando ativada por um painel localizado no canto superior do recinto, no que estou chamando de cabine de controle, inicia um complicado processo de captação que se dedica a recolher minuciosamente todas as energias transmitidas dentro de suas quatro paredes. Estas energias, enfim, são submetidas a uma leitura transatômica que muito se assemelha ao processo quântico que os senhores devem se lembrar das minhas últimas e… ahn… não tão bem sucedidas invenções. No final deste processo, acontece uma transmutação dentro desta sala. Suas paredes brancas são substituídas por outras cores, mais brilhantes, ou mais opacas, a depender dos resultados. Objetos surgem e desaparecem. Por vezes, até novos indivíduos são tragados para dentro dos limites deste recinto. O que acontece aqui dentro, nestes momentos tão grotescos e ao mesmo tempo encantadores, é simplesmente um processo de revelação. A sala se adequa às pessoas que nela estão, e revela momentaneamente, a verdadeira essência da relação entre estes indivíduos. Então, apenas por um momento, vos peço que tenham a bondade de imaginar que esta sala seja habitada por dois objetos de pesquisa. Comuns, medianos, quase medíocres. Casados. Há anos. Sabem tudo o que há para se saber um sobre o outro e, ao mesmo tempo, escondem os segredos dos mais escabrosos, como muitos casais que os senhores conhecem, tenho certeza. No momento em que a sala for ativada, ela revelará a verdadeira essência da relação dos dois, e se transformará, por exemplo, em um lindo campo de flores, caso o amor que professam seja verdadeiro, ou em uma sombria floresta, se, apesar das aparências, eles vivam em um profundo ódio velado. A sala revela a todos o que antes era completamente invisível a olho nu. Pois bem, acredito que os processos tenham sido bem explicados. Vamos agora para aquilo que podemos chamar de fase demonstrativa. Algum voluntário?

(Black-Out)

 

Cena apresentada em Leituras Malditas! dia 03/11/2017 – Lida pelo elenco: Camilla Flores, Diego Lima e Guilherme Trindade.

 

Imagem: Blade Runner – Opening Titles

malditos carolina

A Ajuda – por Carolina Martins

Cena1

(Uma moça entra na sala de espera da emergência com a ajuda de uma enfermeira)

Ela: Aiii, cuidado cacete, já disse que não consigo apoiar o pé! Ai, cuidado! Não posso mexer o braço! Desculpa…Dói muito e eu tive um dia horrível.

Enfermeira: Estou acostumada. Pelo menos sua boca está funcionando bem. Não quebrou. Podia ter sido pior… (ajuda sentar, lhe dá a bolsa e a papelada da burocracia médica). Agora é só esperar o médico chamar pelo nome. (sai)

(A moça deixa a papelada cair no chão. Tenta pegar os papeis e  derruba a bolsa. Tenta pegar a bolsa. Um rapaz que está na sala de espera a observa)

Ele: Precisa de ajuda?

Ela: Não! Obrigada. (Tenta pegar a bolsa uma vez mais, porém se atrapalha e cai no chão. Tenta se levantar, não consegue.  Urra de dor) Ahhhh, merda de braço, merda de pé.

Ele: Eu te …

Ela: Não! Sou uma mulher independente!

Ele: Ainda bem que eu não sou.

Ela: Tá na cara que não.

Ele: É ? É tão evidente assim que não sou independente!

Ela: Não. Que não é mulher.

(Ele se levanta. Também tem uma perna quebrada e um braço.)

Ele: Eu também me quebrei todo. Não posso me apoiar. Mas se eu me virar assim. Ai minha mão. Agora… (Tenta ajudá-la mas também cai no chão.) Aiiii.

Ela: Eu disse que não precisava. Nem adianta me culpar!

Ele: Eu não disse nada!

Ela: Reclamou, disse ai! E eu não tenho nada que ver com isso!

Ele: Eu só queria ajudar…

Ela: Conheço bem vocês. Começa assim, com uma ajuda aqui, uma ajuda ali e depois o bote.

Ele:  Nossa! Fica no chão então. (Ele tenta se levantar e não consegue). Vou precisar de ajuda. (Se olham).

Ela: Tá certo… Enfermeira… Enfermeira.

(Enfermeira entra. Ajuda sem tocá-los. Apenas dando instruções.)

Enfermeira:  Pega a bolsa com  o braço bom e o levanta . Você gira e se apoia na perna boa dele. Isso assim… Agora você apoia a perna assim. Isso.

(Se levantam um apoiando no outro. A Enfermeira sai)

Ele: Enfim sentados. Obrigada pelo apoio.

Ela: Desculpa…Eu tive um dia horrível e… (formal) Nem me apresentei, me chamo EU.

Ele: Também me chamo EU!

Ela: Bom, acho que temos algo em comum.

 

 

Texto escrito por Carolina Martins, durante a oficina “Preliminares do Texto – Análise e Prática” – Junho de 2017

Imagem: Karambolage

Poema Cristina Santos 2

Garças Dançam? – por Cristina Santos

Poema Cristina Santos 2

 

Poema e Imagem de Cristina Santos.

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[COMENTÁRIO] Espetáculo “Aniversário das Coisas Não Feitas” entra em cartaz na Oswald

“A gente até pode enterrar os nosso sonhos. Mas é impressionante como as coisas que a gente não fez ficam latejando na nossa cabeça. As coisas não-feitas se acham as mais importantes.”

Aquilo que não se concretiza, os desejos que nunca se tornam uma realidade material em nossas vidas, provocam marcas tão profundas em nossa identidade quanto aqueles que, por sorte, força ou acaso, acabam vindo a se realizar. Este é o mote disparador do espetáculo Aniversário das Coisas Não Feitas, realização do Ana Núcleo Artístico, e que está em cartaz na Oficina Cultural Oswald de Andrade.

A celebração, como o próprio nome diz, acompanha a história dos aniversários destes não-feitos, através da vida de uma protagonista. “Era uma vez uma menina chamada Luísa. Luísa não tinha uma história. Ela tinha dois hematomas no joelho, um medo enorme de se perder e nenhuma história.” Ano a ano, a não história de Luísa vai se confundindo com seus momentos mais importantes, aqueles que nunca aconteceram, entre conquistas e frustrações, desde aquela vez em que Luísa tentou fugir de casa e não deu nem a volta no quarteirão, até sua ausente festa de quinze anos, passando pelos amores não vividos, e por seus sonhos não realizados.

Dirigido por Vann Porath, o projeto, em uma tentativa de integrar diferentes campos da arte, busca na performance e na gastronomia elementos para ajudar a tornar a experiência do espectador ainda mais potente. No palco, as duas atrizes Elaine Belmonte e Daniela Schitini são acompanhadas da acordeonista Camila Borges e da chefe de cozinha Simone Borsolari, esta última responsável por preparar alguns pratos que são servidos para o público conforme a peça avança.

Através destas múltiplas linguagens, o espetáculo se pretende, em uma espécie de inversão dos valores negativos do arrependimento e da auto-comiseração, uma celebração das coisas não feitas, um momento para realizar, enfim, a devida equivalência de importâncias, igualando em um movimento o que foi feito e o que não foi feito, o que foi dito, e o que foi calado, o ser e o não ser. Desde o início – em uma sequência de imagens que se sobrepõem como fotos antigas (estes eternos registros de ações e aspirações não realizadas) -, o espetáculo funciona como um mecanismo de auto-incompletude, uma declaração de atos que se sobrepõem e expõem as diversas faces do que nunca aconteceu.

O não feito é exposto como um simples lapso, como uma grande ausência, como uma coincidência, como um acidente, como uma benfeitoria, como um acaso, como um destino, como uma escolha, mas acima de tudo, como uma peça fundamental da nossa identidade. Como uma esponja-do-mar, repleta de buracos que nada são senão exatamente aquilo que a constituem; um animal como nós, cujas ausências são tão importantes quanto as presenças em si.

Através destas diversas faces, as duas atrizes compõem uma dramaturgia fragmentada e fragmentária, que mais do que apenas justaposição de momentos da vida de Luísa, nos jogam para a decomposição de nossas próprias vidas, cujos significados ficam perdidos em um mar de realizações e frustrações às quais nunca conseguimos dar os devidos pesos. No que concerne ao que não fizemos, seremos sempre criaturas trágicas, cujas limitações humanas fazem com que nunca tenhamos acesso a outros pontos de vista de nossas próprias narrativas, sempre condenados a esta visão fragmentada e falha, produzida por nossa própria memória, de nós mesmos.

Nossas identidades, presas a este redemoinho do que nos aconteceu, não pode ser deslocada, testada em outros cenários, readquirida. Os não feitos estão colados, cravados em pedra, presos como penduricalhos enroscados nos grossos pelos do búfalo, grudados como o lixo arremessado às costas da barata kafkiana, que acabaria por matá-la. É a nossa obsessão em descolá-los de nós, em enxaguar os não-feitos com nosso currículo de realizações, aquilo que mais verdadeiramente nos fragmenta, neste processo de retroalimentação que é a projeção de nossas identidades futuras. Uma estratégia inútil, um terreno inócuo, que funciona apenas aqui, no teatro, quando podemos brincar de refazer uma cena quantas vezes quisermos, de Ofélias e de Ifigênias. Que aprendamos a celebrá-los, então, os não-feitos, para que não terminemos como Luísa, a menina que, suspeito eu, não tinha nenhuma história exatamente porque tinha um medo enorme de se perder.

 

Serviço
Aniversário das Coisas Não Feitas
Local: Oficina Cultural Oswald de Andrade
Rua Três Rios, 363 – Bom Retiro – São Paulo
Sextas-feiras, às 20h, e sábados, às 18h
De 04 a 12 de agosto

Poema Cristina Santos

Imagem – por Cristina Santos

Poema Cristina Santos

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Poema e Imagem de Cristina Santos.

Gestão do ser

Gestão do ser corrido ao pé – por Arthur Martinez

Sempre que encontrava algo melhor, ela o trocava.

Tinha a sensação de ápice. Algo fugido de dentro, do centro. Algo abominável. Procurava o pé. Procurava sempre pelo pé. Jamais sorria.

 

Tentava de todo modo se livrar da desagradável criatura. Em vão, sempre em vão. Era mais forte, mais alto e visivelmente superior.

 

Cortava-lhe lasquinhas do dedão esquerdo. Tentava feri-lo. E corria de medo dele. Morria de medo dele.

 

Tinha porém uma curiosidade, unida com uma coragem inusitada.

 

Forte e lerdo, ele acordava. Fazia dois movimentos bestiais e retornava ao seu sono íntimo e refrescante. Voltado para o sol. O segundo sol.

 

Ela precisava trocá-lo, e tocá-lo em outra extremidade do seu ser corrente. Prendê-lo em seu arco flamejante. Cortá-lo novamente, quem sabe?

 

Foi-se em nova investida: Cuspir-lhe à cara. Falsos trejeitos a desconcertaram.

 

Gestão de seus movimentos.

 

Estava pra desistir diante de tudo aquilo que era a criatura. Pensou-se em ir. Pensou-se ali. Logo, pensou em ficar. Tentar tudo novamente. Acordar sem despertá-lo.

 

Foi-se uma, duas e logo a terceira batida: Dormia profundamente em seu recanto não mais silencioso.

 

Foi-se quatro, cinco e a sexta batida: Virou-se para o lado.

 

Foi-se sete, oito, nove e a décima batida: Trovoadas seguidas de vento!

 

Acordara o gigante! Seus pés bateram no chão com impressionante força e firmeza. Ela sucumbiu diante do pesado pó.

 

Distante corrida até o fim seguro.

 

Precipitou-se a desistir. Indo embora pelo torto caminho de pedra lascada e seca. Água em teus olhos. Água salgada surgia, embaçando sua visão.

 

Ele se aproximava. Seu desespero, seu choro, sua pulsação antes pendentes, explodiram.

 

Aproximava-se. Suspense mórbido.

 

Foi então que a criatura sorriu. A ergueu com sua mão de pele tão dura.

Diante dela o gigante sorriu.

 

Não iria mais trocá-lo. Apenas tocá-lo. Para sentir.

Sentiu-o como havia sonhado em sentir seu predecessor inexistente.

 

Por fim sorriu.

cristina santos

Noite – por Cristina Santos

A serpente espreita a presa. A samambaia gira. 
O quadro despenca. A coruja com as espadas 
de São Jorge, aguarda e guarda sua aura. A lua 
pisca, o mundo cai. E eu, desfaleço.

 

 

Imagem: Alexandra Levasseur

meninapassa

Quando a menina passa – por Arthur Martinez

Tudo muda. Gabriela. Seu nome majestoso acompanha um andar peculiar e divertido de menina. Coisas como preocupações, neuras e gasturas se vão, quando ela passa. O vento ao seu favor. Tudo muda.

 

Cheirosa como a flor do monte limado. Ela passa. Sinto que não sou o mesmo.

 

Gabriela, eu te amo! Sem mais e, sem menos. Assim, assim de repente, me descubro apaixonado pela menina.

 

Se tivesse alguma dúvida, talvez pudesse reorganizar meus pensamentos. A certeza do amor chegou. É um sentimento estranho, um tanto (muito) brega. Eu diria se tratar de um sentimento desajustado, confuso e complicado como nenhum outro. Complexidade comparada somente ao ódio e a saudade, mas um pouco mais lisonjeiro. Demasiado bagunçado pelas suas sutilezas e peculiaridades. Coisa do “só amor” ou “amor só”. Somente o amar, poderia explicar tamanho reboliço.

 

Gabriela Panela. Remota infância. Catando seus morangos com uma caçarola gigantesca. Correndo dos cachorros e, rindo dos gatos assanhados que a perseguiam. Assim que eu me recordo dela.

 

Gabriela, meu amor! Pés descalços. Sorriso de criança. Bochechas coradas. Sem rumo. Sem destino. Sem nada. Voava-se. Corridas na vizinhança, esvoaçando seu vestido amarelo, seu cabelo despenteado. Tudo nela precisava ser arrumado. Coisa de menina.

 

As lantejoulas no trabalho de geografia, a pipa que tentava, em vão, fazer subir ao céu. Lembro-me.

 

A cor dos seus olhos. Esqueço-me.

Lembro do céu, do sol e, da chuva, mas não de seus olhos. Os olhos de Gabriela. Uma pena não lembrar de olhos tão lindos. Verdes, castanhos, azuis, negros… Seus olhos eram certamente belos. Essa é a certeza que me acompanha em meio à tantas imprecisões que me denúncia esta memória falha. Coisa de velho.

 

Gabriela se foi ainda criança. Teria se tornado uma bela mulher. Uma pena que se foi. Talvez pela pressa, talvez pela euforia descontrolada de seu corpo juvenil, não se conteve e foi-se sem ao menos um adeus. Foi-se para sempre. E deixou para traz apenas memórias em nossas mentes enferrujadas pelo tempo. Ato de pouca generosidade, certamente. Se foi pra nunca mais voltar.

 

A Gabriela dos olhos de canela

 

entre vãos

[CRÍTICA] “Entre Vãos” poetiza o abandono dos despejados – por Vana Medeiros

Passei a semana toda introspectiva, sendo afetada por algo que me aconteceu. Uma peça que eu vi: três peças. Acompanhei nas últimas semanas o projeto Entre Vãos, da Digna Companhia. O projeto (como tantos dos bons) me parece ter saído de uma ótima pergunta: o que aconteceu com os moradores despejados do São Vito, o famoso Treme-Treme, edifício que foi finalmente demolido em 2011, depois de uma espera de anos entre ameaças? A partir daí, e se toparmos o convite de assistir às três narrativas – em dias diferentes, já que elas são simultâneas -, conheceremos as histórias de três ex-moradores da ocupação habitacional, que foram expulsos de seus lares e jogados de volta neste monstro de concreto que nos engole todos os dias, São Paulo.

As histórias, independentes entre si, estão também profundamente interligadas, e formam um mosaico instigante, contaminando-se em diversos pontos, e em especial tematicamente. As três histórias, muito mais do que citarem umas às outras, têm em comum seus discursos: falam de morte, de loucura, de suicídio e principalmente de abandono. O que é o despejo senão um abandono forçado daquele que já foi abandonado pelo poder? Fala-se aqui do despejo daqueles corpos do São Vito, mas é ainda do despejo de suas forças de trabalho, de seus afetos, de seus modos de relação, de seus devires e de suas demandas, que, se já não eram párias no círculo das pulsões sociais, passam a ser. Com a saída do São Vito, corpos que parecem não ter mais lugar no espaço, circulam ligados apenas a uma espécie de não pertencimento que só pode ser criado pelo despejo, pela morte social prematura a que eles são condenados.

O comovente aqui é que eles parecem não ter se dado conta disso. Tanto o Anjo do Corredor, quando a Balconista e o Livreiro nos recepcionam em suas novas configurações espaciais – o apartamento que sobrevive como uma coincidência de dois tempos, a loja de palestas mexicanas e o sebo/moradia mantido a duras penas. São seus novos cantos neste mundo, preenchidos por um discurso sempre de muito orgulho e prazer, ostentado por nossos anfitriões da desHabitação. São três resistentes que, ao ostentarem a sempre cordial atitude do bom anfitrião à brasileira (“Desculpa qualquer coisa”, “Você gosta de bolo? Acabei de fazer bolo”, “É tudo muito simples, não repara não”), nos seduzem em um jogo de cortesias e revelações amargas, riquezas de espírito contrastando com suas calmas pobrezas organizadas, concretizações de uma vida anacrônica e devires que nunca teriam a chance de se tornar concreto. Os locais de cena são três espaços provisórios que provêem provisoriamente: satisfazem a necessidade imediata de abrigo até a segunda ordem, que aqui é, como acontece de maneira fatal e corriqueira, a ordem da mão pesada do capital, que interfere como um furacão de clichês em uma cena, mas que logo se revelam os clichês mais surrealmente necessários. Uma única figura não suportaria tantos poderes caso não pudesse conviver com eles sem o menor remorso: os poderes do capital financeiro, da mão dura da ordem, do status quo, da especulação imobiliária, da moral dupla do estado, da moral dupla da classe média paulistana. Uma interferência que tudo muda para nada mudar. Uma última chama de resistência responde, luta, briga, quer continuar a viver e está disposto a levantar sua pesada espada contra o moinho de vento armado de sua peruca loira que invade a cena. Mas o respiro – como a esperança enfim – é provisório, e não estariam nossos três sobreviventes condenados em um resto pálido de vida anunciada desde o começo?

Esta peça falou comigo, como penso que eu já deixei escapar entre uma linha e outra destes meus apressados escritos. E desconfio que, entre as atuações precisas e simples, a sedução brilhante do sight specific, as músicas de um colorido opaco e angustiante e o tom acolhedor da narrativa, eu vi um movimento muito específico que me atrai, como sempre, uma dramaturgia. Ao se propor a tratar de um tema tão agudo e sufocante, o texto nos envolve em uma experiência que pode ser tudo, menos aguda e angustiante. É uma cena-máquina – uma cena que não explica: produz. Com movimento de direção e dramaturgia que em tudo parecem colaborar para que o público saia sorrindo desta experiência, me parece que o que ela produz – depois de alguns dias de digestão, como todo saboroso alimento artístico – é mais trágico do que o bolo e o suco de groselha em um apartamento do centro nos anos 1980 parecem nos mostrar. O que, afinal de contas, virá nos socorrer nessa babel desenfreada? Uma história que parte do micro para atingir o macro, que fala do São Vito, mas de todos nós, que nos pergunta como será possível viver em uma cidade com os processos de hierarquizacão entre pessoas, coisas, concreto e carne, como se tivéssemos aceitado mastigar um punhado daquelas pedrinhas que ficam no chão depois que o asfalto seca.

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A peça ainda está em cartaz e vai até o dia 16/05. Se eu fosse você, não perdia por nada. Mais informações no site da Digna: http://www.adigna.com/entrevaos.html

Foto de Alecio Cezar

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Mentiras – por Maurício Ferreira

RAPAZ

Não busco mais o amor. Meu coração? Já nem sei mais. Isso é bobagem! Bullshit! Não importa, esse tipo de amor é um sentimento inventado para os fracos se perderem e nunca mais se acharem.

Esse tipo de amor já não machuca mais o meu coração, já não penso mais em quem um dia amei e parar de pensar nele foi fácil, a vida é feita de escolhas, escolhi não mais amar.

A vida me mostrou outras possibilidades: Grindr, Tinder, Scruff, Sauna, Banheirão. São tantas as possiblidades de ser feliz, porque as pessoas ainda insistem em amar? “Sexo, drogas e rock and roll”, quem disse que essas são as três coisas essenciais da vida foi um gênio!

Porque amar? Nem sei mais! Meu coração? Deixei com quem acreditei um dia ser o amor da minha vida e se você quiser saber do meu coração pergunte a ele, pois dele, já nem sei mais.

 

 

Texto escrito no Workshop de Compartilhamento “Amor e Violência – Funarte” – Outubro/2016