Blog Maldito

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Category Archives:Textos Malditos

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Onde Estão Minhas Palavras – por Cristina Santos

Onde estão minhas palavras?

Onde estão minhas palavras?

Não consigo encontrá-las.

Olhei em baixo da cama, do sofá,

Dentro da geladeira, do armário.

Abri minha cabeça…

E não as encontrei.

Não ria.

Não ria.

São minhas palavras

Que estão perdidas.

E sem elas,

Quem se perde

Sou eu.

 

 

Artista: Alexandra Levasseur

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O Fã – Ouvi Contar – por Márcio Tito

Quando dinheiro não é problema, o que substitui a questão? A Cultura, a gazeta fm, a credibilidade?

A maior tragédia da vida seria ver coisas inesperadas? A maior agressão (psicológica) à que estamos sujeitos seria…  Vivermos para assistir a todas as nossas expectativas perdendo força!

O problema não é o dinheiro! O problema é que você se vendeu! Que tempo é este onde os súditos cobram qualidade ideológica de seus reis?

Todos fazem, eu sei, mas você que é você, que é alguém para mim, você precisa ser melhor! Eu preciso alçar vôo partindo da pista dos teus acertos. Tua perfeição me eleva. Teus defeitos me tombam, sinto dor e miséria, preciso matar ou morrer – MELHORE!

Marc Chapman mata seu ídolo e fica nu. Nas imediações do crime abre um livro e fala com o Diabo. Aqui, o fã, potencial assassino, através da ação que dribla a violência física, ainda é capaz de ultrapassar a metáfora da nudez e, ativamente, desnudar seu objeto para tomar sua forma material. O vestido é simulacro para nova persona.

Quer reencarnar quem ainda vive.

Colado neste paradoxo, cantar em cativeiro é caber na boca da gaiola.

Surge aqui o único procedimento que a direção propõe. Este acerto foi capaz de ultrapassar o drama e re-configurar sua forma dialógica tradicional, este encontro entre cena e dramaturgia aponta para a mais poderosa intenção do texto (imaginando que se queira um trabalho pautado na contradição radical das personagens ali colocadas em situação).

Quando o texto sintonizar a frequência do momento em que a refém se faz a própria voz do opressor, sem abrir mão da beleza estética do canto, estaremos diante (e dentro) das sutilezas mais contemporâneas e potentes que a dramaturgia apresenta.

 

 

“Diálogos – Crítica Imediata”, feito durante a Satyrianas 2016.

O Fã – Ouvi Contar

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Eu Fecho A Janela Toda Vez Que Você Sai – por Luan Carvalho

O abajur ilumina o quarto, caixas espalhadas. João está sentado à beira
da cama, de costas. A janela aberta, a cidade vive. Chico entra.

Chico senta-se na mesma cama, ao lado oposto.

Chico – Já?!
João – Deixei seus discos no armário da sala.
– –
Chico – Está tarde. Pode dormir aqui, se quiser…
João – Já chamei um táxi.
Chico (sussurrando) –… eu quero.
João – Ele já deve estar me esperando.
Chico – O táxi?
João – Não.
– – –
João se levanta, retira do bolso as chaves, faz menção de entregar a
Chico que permanece estático.

João as coloca sobre o criado-mudo. Chico caminha até a janela.
Chico – É uma noite muito bonita pra se ir… A lua está sorrindo. Como naquela
noite na praia, lembra?
João – Lembro.
– –
João – Amanhã eu passo pra pegar as caixas.
João sai levando consigo uma mala. Chico fecha a janela.
Chico – É uma noite muito bonita pra chorar.
Chico deita-se, apaga o abajur e adormece.

 

Texto escrito no Workshop de Compartilhamento “Amor e Violência – Funarte” – Outubro/2016

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Colateral – por Maurício Ferreira

(DTox está dirigindo o carro, Darling está no banco do passageiro mexendo em seu celular e Mateus no banco de trás.)

MATEUS

Darling para de ficar respondendo as mensagens desse cara, ele não te merece.

DARLING

Fica na sua Mateus, senão não te deixo beber do meu whisky.

MATEUS

Meus 18 anos, vou beber até cair. Pena que o Gustavo preferiu ir pra Plus X, queria tanto que ele tivesse vindo também.

DARLING

Esquece o Gustavo bee, qualquer coisa se contenta aqui com o DTox.

DTOX

Tá me estranhando Darlingzinha? A fruta que eu gosto quem fornece é você.

(Chegam à loja de conveniência.)

DARLING

A gente já volta Mathew, quer alguma coisa além do Whisky?

DTOX

Um leitinho?

MATEUS

Vai à merda vocês dois.

(Darling e DTox saem do carro e vão para a loja de conveniência. Mateus fica no carro vendo fotos de Gustavo em seu celular. Leandro bate na janela do carro. Mateus se assusta. Leandro faz sinal com as mãos para que Mateus abra a janela.)

LEANDRO

Desculpa, te assustei?

MATEUS

Não, eu só tava distraído.

LEANDRO

Meu nome é Leandro e o seu?

MATEUS

Mateus.

LEANDRO

Oi Mateus. Eu tava indo para Ubatuba mas o meu gps não tá dando sinal. Acho que me perdi.

MATEUS

Nossa, você tá bem perdido. Você tem que descer toda a rua e lá no final virar à direita. Você vai andar mais uns quinze minutos e vai cair na Marginal Tietê, daí é só ir seguindo as placas.

(Leandro olha fixamente para os olhos de Mateus, que fica sem graça.)

LEANDRO

Desculpa por ficar encarando, é que seus olhos tem uma cor tão bonita, é um verde bem penetrante.

MATEUS

Obrigado?

LEANDRO

Eu tô tão cansado. Tô dirigindo há horas e não conheço nada por aqui, talvez seja meio perigoso dirigir desse jeito. Você não conhece um hotelzinho barato por aqui?

MATEUS

Por aqui? Hmmm, não sei…

LEANDRO

Você mora aqui perto?

(DTox se aproxima de Leandro pelas costas.)

DTOX

Algum problema?

LEANDRO

Não. Nenhum problema. Obrigado Mateus.

MATEUS

Boa viagem.

(Leandro sai. Dtox entra no carro no banco de trás.)

DTOX

Seus pais nunca te avisaram para não falar com estranhos?

MATEUS

Ele só tava perdido.

DTOX

Um carinha bonitinho, perdido, vindo pedir informação à uma da manhã? E você todo tonto quase abrindo a porta do carro pra ele.

MATEUS

Relaxa, eu não sou nenhum idiota.

DTOX

Você devia se cuidar, esses com cara de inocentes são os piores.

MATEUS

(irritado) Tá tá, tá bom. E cadê a bebida?

DTOX

A Darling tá trazendo.

(Darling chorando e tremendo entra no carro, no banco do passageiro.)

DARLING

Meninos, aconteceu uma tragédia.

DTOX

O que foi?

DARLING

Um louco saiu atirando dentro da Plus X.

MATEUS

Como assim? Aonde você viu isso?

DARLING

Na tv, aí na lojinha.

(Mateus se desespera para abrir a porta do carro.)

DTOX

Calma Mateus.

MATEUS

O Gustavo tá lá.

(Mateus sai do carro correndo em direção à loja de conveniência. Quando entra na loja ele assiste na tv uma repórter colhendo depoimento de uma das testemunhas que estava na Plus X.)

TESTEMUNHA

(chorando e abalada) Foi tudo muito rápido. Eu ouvi os tiros e de repente as pessoas começaram a correr e a gritar, foi tudo muito rápido.

(DTox e Darling entram na loja de conveniência e também assistem ao noticiário junto de Mateus.)

REPÓRTER

Obrigada. Como vocês podem ver as pessoas estão muito abaladas. Nós temos o vídeo de uma menina que não quis se identificar, mas que estava filmando com o celular dentro da Plux X no momento do ataque e conseguimos ver o rosto do homem que atira. Temos aí a imagem.

(Aparece a imagem de Leandro. DTox e Mateus ficam atônitos.)

REPÓRTER

A polícia já o identificou como Leandro Pereira de Lima, ele tem 25 anos e a suspeita é de crime por homofobia. Leandro é da cidade de Ubatuba e se encontra foragido. A polícia pede para que entrem em contato se houver qualquer informação.

 

Cena vencedora da seleção para a Master Class 4 – Aguinaldo Silva. Baseada na notícia “Ataque à boate Pulse em Orlando”.

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Chá de Camomila com Alecrim – por Fernando Vasques

que nossa dramaturgia se faça hemorragia

fluído vital e que a gente persista

sendo malditos pelo não dito

pelo contrário pelo consenso

pelos pubianos encravados

pelo amor de todos os deuses

sejamos autores

sejamos atores

das dores e das belezas também

objetos voadores não identificados

objetos terrestres arrebatados

objeto indireto

José olhou para o céu

Maria olhou para si e também viu o céu

pés plantados em chão de concreto ou terra

porre de cachaça envelhecida em carvalho

ou suco de uva fermentado

chá de camomila com alecrim

sejamos alegria antes e depois do prenúncio do fim

 

 

 

Fernando Vasques, ator, músico e poeta, para o Malditos Dramaturgos! <3

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Jantar Casa de Carmela: apontamentos de sensações e descobertas a partir do encontro. – por Flaviane Gonçalves

Somos feitos de nossas memórias, escolhas, apreensões pelo mundo objetivo e as sensações pelas quais somos beneficamente invadidos a cada ato.

Um ambiente que promove o encontro com nossos iguais, embora diferentes sejam nossas trajetórias, num dia tão intenso.

Unificados pela descontração, curiosos pelo formato em que a apresentação se dará, somos surpreendidos pela instauração do silêncio e eis a primeira canção e, mesmo não compreendendo seu significado literal, somos atravessados pela beleza, energia e intensidade que ela se realiza, e as outras e, sucessivamente, cada canção, imagem e energia espalhadas por aquele espaço no qual somos unidos e tragados pelo amor e vida, no cotidiano constantemente esquecidos pelas interrupções externas, que periga nos afastar do essencial, que é altamente transmitido ao longo do encontro. Uma experiência verdadeiramente transmitida e vivida. Sem começo ou fim, possui dispositivos de organização, embora seja altamente fluido, seguindo seu curso, intenso, não se distinguindo da vida quando sensivelmente percebida.

Por que este prato e não outro prato? É o sabor amargo que, ora deixa de ser assustador e se torna saboroso encontro, ou aquele que era doce e palatável e distante e desconhecido e distante se torna. Basta um ingrediente-presença e a reação é diferente: proximidade, distância, proximidade, e os caminhos, as possibilidades se bifurcam, infinitamente, surpreendendo-nos a cada encontro, desencontro.

“Recontando a sua história na minha” sim, a partir do encontro, daquela noite, seremos outros e compartilharemos a mesma história.

Há quanto tempo não ouço o meu coração bater, no ritmo dele, que é único, pois sou invadida, pelo ritmo dos outros. Vocês proporcionaram silenciar e sentir, plenamente.

Não estamos sós, embora na procura haja encontros e as chegadas sejam singulares.

Obrigada pelo encontro.

 

Julho de 2015

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Escrita embriagada – por Filipe P.

Gosto de gengibre na língua. Desce queimando a garganta. Como um bom vinho quente. Ou pinga, Uísque ou qualquer outro destilado forte. Frio da porra. Ficar de porre seria tudo que eu preciso. Pode até ser cerveja, desde sejam muitas. A primeira não muito gelada, por favor.

Depois do terceiro copo eu parei de contar, cara, no fim das contas só atrapalha ficar verificando, beber com os outros é bom porque tem com quem rachar Caralho, mano, hahahahaha, esse cara é uma figura, mas então, diz aí, conta o que mais você vai fazer com essa porra toda, Ah, porra, não derruba que a bebida custa caro! Filho da puta bebe pra caralho e nem vê onde tá indo Mas então, porque Aristóteles já dizia que sabia que nada sabia e todo mundo achou bonito e vai você falar isso para ver todo mundo te tirando de trouxa e Você é trouxa mesmo, que quem disse isso foi Sócrates Vai tomar no cu seu cuzão, veio pra cá só pra ficar vomitando Quem vomitou? Hahahahaha, que frouxo, não agüenta bebe leite Dá pra calar a boca e continuar no assunto?

A Terceira Margem do Rio é um título bom pra cacete porque só existem duas margens e É verdade eu nunca parei para pensar nisso mas o que significa Deve ser uma referência ao barco que nunca para em lugar algum pois o pai não sai dele e está sempre à margem do universo do narrador-filho e Ele morreu eu sempre achei que ele estava morto Aí vira romance espírita ou seja uma bosta Porra eu sou espírita você tem algo contra Nada contra você ser tudo contra romance espírita meus pais adoram e só falam disso O importante é que a Terceira Margem é outro plano outra maneira de existir e a figura do pai o habita ou seja você não tem como acessar Na verdade acho que é possível sim ele fica chamando o filho em alguns momentos mas é necessário se desprender do mundo Sabe o que o Norberto falou Não o quê Que o conto era sobre a perda e ponto final Ah mas que imbecil é foda só porque tem a porra de um doutorado ele pode vomitar qualquer superficialidade que todo mundo diz amém

Hahahahahaha falando em Graciliano cadê o nosso especialista em contos populares é mesmo cadê o Eraldo que não vem aqui para beber com a gente ele disse que ia trazer pinga de alambique pra gente beber e você acredita naquele curupira hahahahaha tem que trazer leite praquele tratante vir aqui cara estou precisando dar uma trepada porra mano dá pra falar mais alto que acho que o garçom não te ouviu e mas sério meu faz trinta dias que eu você não escolhe quem você pega e hahahahahaha cara vergonha alheia de vocês e mais quando a gente volta para a aula volta nada fica e bebe mais uma e e agora eu não tenho mais um puto para pagar hahahahahahaha tá rindo do quê sei lá e só preciso olhar para cara de vocês meu é sério eu preciso de um relacionamento sério na minha vida pois um mês de seca vixe quando você pegar alguém vai precisar ser feito de aço pois você vai chegar com fúria hahahahaha só tendo superpoderes para sobreviver a uma pegada dela ah cala a boca mas sério vocês estão todos ficcionais hoje por falar em ficção imagina se todos fôssemos personagens de um escritor em exercício de escrita com o tempo esgotando a nossa vida poderia acabar de maneira súbita pois poderiam faltar apenas trinta segundos para que ele acab——–

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Redenção – por Cristina Santos

toda vez que escrevo

parece que me redimo

de algo

de alguém

de um o que.

sou perdoada por um ser que não vejo

mas que sinto todos os dias arranhando minhas entranhas.

e como sou uma pecadora suja

eu quero

eu preciso

eu desejo

eu necessito escrever a todo instante

para ser eternamente redimida.

 

 

Artista: Alexandra Levasseur

 

 

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Vão – por Vana Medeiros

Cuidado com o vão

Entre quem você é

E quem você gostaria de ser

 

Mesmo quando ele não existe

Ele está lá

Inequívoco

Juiz

Senhor de si

Preenchido de vazio e culpa

 

(É neste vão que a gente acorda todos os dias por volta das 8h da manhã)

 

Cuidado com o vão entre o poema imaginado

E aquele que nos escreve.

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Mecanismos Para Preencher o Vazio – por Flaviane Gonçalves

Enquanto eu puder, farei um bom trabalho, enfrentarei as dificuldades, construirei um futuro, agirei como mandam as regras. Acredito poder ter coisas no futuro e um amor desses de verdade e tempo para aproveitar tudo. E isso nós não temos. Quantas vezes você já matou uma pessoa hoje? Desespero de tudo: ter, ser, sobreviver. Troco tantas palavras com tantas pessoas quando gostaria de me calar. As violências a gente sofre todo dia. Feito bicho acuado responde com violência. Tem medo de toda gente e das coisas que a gente não entende e que são muitas. Aqui com o dia ocupado e correndo, porque é o que a vida nos pede – fazer, fazer, fazer- dá pra evitar às vezes de lembrar o que não está resolvido dentro. É no sono que preencho o vazio. Já pensei em largar tudo e ir de uma ponta a outra do tempo sem precisar acordar. Aulas, bares, jantares, filmes, notificações, muito barulho, silên…ocupo o vazio que é viver só na multidão. Como eu me sinto? 3,80 para ir e 3 e todos para voltar, quase 8 reais, 6 horas, tantos dias. Como você se sente? Se fosse proibido o uso de celular, morreria. Mas não há mais o que esperar. Porque o mundo se agride com essa força bruta.